Uma visão escancaradamente liberal: Seis interpretações do Brasil - Bresser (1983)
terça-feira, 24 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Quem é o Brasil e quem são os Brasileiros: uma questão do passado?
Eis que [re]surge a velha questão da formação do povo brasileiro, às vésperas da comemoração do Dia do Índio, indício de que não se trata de uma questão velha.
Confiram o texto de Edson Silva, Presidente da ANPUH-PE (2011-2012). Doutor em História Social pela UNICAMP. Professor no Centro de Educação/Col. de Aplicação da UFPE rebatendo as formas de representação do índio na formação sócio-histórica do Brasil.
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"SOMOS TODOS ÍNDIOS?!" CRÍTICAS A UM DISCURSO EQUIVOCADO*
19/04/2012"SOMOS TODOS ÍNDIOS?!" CRÍTICAS A UM DISCURSO EQUIVOCADO
Edson Silva*
"Somos todos índios". Com esse título o Jornal do Commercio (Recife) publicou no sábado 12/04/2012 uma matéria no encarte Galerajc, que é destinado ao público infanto-juvenil. O conteúdo da referida matéria, expressa, salvo raríssimas exceções, como a imprensa (e não somente a escrita!) trata a temática indígena, mais enfaticamente nas proximidades ou no Dia do índio: com desinformações, equívocos e preconceitos. Até mesmo reconhecidos e prestigiados periódicos, como a revista Ciência Hoje das crianças, publicada pela SBPC, em sua edição nº 25 de abril/2012, trás na capa e no seu interior ao abordar as línguas indígenas faladas no Brasil, caricaturas grotescas que reproduzem e reafirmam estereótipos sobre e contra os índios.
Como realizar discussões sobre a temática indígena com a seriedade necessária? Ao abordar o assunto, como fugir do exótico e apresentar, discutir informações críticas? Essa é uma questão fundamental quando os meios de comunicações e ainda os livros didáticos se referem aos índios em textos e imagens.
Para uma visão crítica da citada matéria acima publicada no jornal, começamos pelo título infeliz: "Somos todos brasileiros", onde novamente a antiga ideia e discursos da mestiçagem, subtendendo-se a mistura de "raças", com a História pensada como tudo colocado em um caldeirão que formou o Brasil. E assim ignorando, mascarando, as especificidades das diferentes e diversas expressões socioculturais indígenas existentes no país.
O texto é acompanhado de fotografias com crianças indígenas, sem nenhuma referência sobre do que se trata o momento da foto, qual povo indígena e onde habita. A informação que "os antropólogos acham que hoje só existem 300 mil índios no País", e por demais equivocada! Além dos "antropólogos" não fazerem tal afirmação, o Censo do IBGE/2010 contabilizou, embora seja o número bastante discutível pelos pesquisadores, a população indígena no Brasil em 753 mil indivíduos sendo em Pernambuco 53 mil índios, em 12 povos que habitam no Agreste e Sertão do estado.
No mesmo texto ainda onde se lê que em 1500 foi o ano do "Descobrimento" do Brasil, há uma ênfase na redução da população indígena resultado dos "conflitos com os brancos", por meio da escravização, catequese e interesse pelas terras indígenas. Ao acentuar tal perspectiva é reforçada apenas uma suposta dominação colonial hegemônica diante de povos colonizados passivos. Dizendo de outra forma, uma ênfase no discurso preconceituoso sobre os índios como vítimas dos males da colonização, desprezando-se as ações indivíduas e coletivas indígenas na reformulação da dominação colonial em diversos contextos sociohistoricos, como comprovam as pesquisas.
Além disso, tal ideia também colabora para uma ideia de que os índios incapazes estão condenados implicitamente ao desaparecimento, o que desmentindo pelas próprias estimativas oficiais que afirmam o crescimento surpreendente da população indígena no Brasil nos últimos anos.
Ao tratar os índios como "tribos" o texto remete a uma concepção superada de hierarquização sociológica onde se diferenciavam nações, povos, etc., cabendo as "tribos" o último degrau de uma suposta escala de evolução sociocultural, pensada do ponto de vista Ocidental ou mais precisamente eurocêntrica. Ou seja, existem "tribos" na Europa moderna?!
Ao nomearmos povos indígenas, não se trata apenas de uma questão meramente semântica, porém o reconhecimento de grupos humanos que possuem história e expressões socioculturais específicas na História do Brasil, e não fora dela, se tratando ainda de coletividades que possuem na maioria das vezes uma História muito anterior ao próprio Brasil, ao próprio Estado brasileiro.
A ênfase, como aparece no texto em questão, na nossa herança cultural indígena seja por meio do "artesanato" (porque não Arte Indígena?!), nas "lendas" (por que não mitos indígenas?!), músicas, etc., etc., remete ao assinalado exotismo cultural: uma imagem do índio como um ser alienígena de quem se quer superficialmente conhecer a ‘cultura do índio' em seus apetrechos materiais visíveis, que seleciona-se me grande parte das vezes do ponto de vista consumista. Um consumo do éxótioc! Desprezando-se, ignorando-se uma discussão aprofundada da importância das expressões das sociodiversidades, dos saberes, as formas de ser e das organizações sociopolíticas indígenas, para a história da humanidade, do país.
As concepções aqui assinaladas e questionadas são muito comuns na grande maioria dos textos jornalísticos em geral e também em publicações especializadas. O que revela abordagens que não são baseadas em pesquisas e estudos especializados sobre o tema.
Os povos indígenas inegavelmente ocuparam o cenário sociopolítico em nosso país e a partir de suas mobilizações conquistaram nos últimos anos o (re)conhecimento, o respeito e a garantia a seus direitos específicos e diferenciados. Contribuindo com isso nas discussões sobre e as diferenças socioculturais, para se repensar em um novo desenho do Brasil em suas diversidades e pluralidades. Ou melhor, em sua sociodiversidades.
Esse reconhecimento exige também outras posturas da sociedade e medidas das autoridades governamentais em ouvir dos diferentes sujeitos sociais as necessidades de novas políticas públicas que reconheça, respeite e garantam essas diferenças. A Lei 11.645/2008 determinou a inclusão do ensino da história e culturas indígenas nos currículos escolares, ainda que careça de maiores definições, objetivou a superação dessa lacuna na formação escolar, a medida legal contribui para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar o país, a História do Brasil.
Os textos publicados, sejam jornalísticos, sejam em revistas especializadas, nos livros didáticos, ou ainda no ambiente acadêmico, devem estar sintonizados com as demandas sociais. Caso contrário, permanecerão reproduzindo, perpetuando antigas desinformações, equívocos e preconceitos sobre os povos indígenas.
Como realizar discussões sobre a temática indígena com a seriedade necessária? Ao abordar o assunto, como fugir do exótico e apresentar, discutir informações críticas? Essa é uma questão fundamental quando os meios de comunicações e ainda os livros didáticos se referem aos índios em textos e imagens.
Para uma visão crítica da citada matéria acima publicada no jornal, começamos pelo título infeliz: "Somos todos brasileiros", onde novamente a antiga ideia e discursos da mestiçagem, subtendendo-se a mistura de "raças", com a História pensada como tudo colocado em um caldeirão que formou o Brasil. E assim ignorando, mascarando, as especificidades das diferentes e diversas expressões socioculturais indígenas existentes no país.
O texto é acompanhado de fotografias com crianças indígenas, sem nenhuma referência sobre do que se trata o momento da foto, qual povo indígena e onde habita. A informação que "os antropólogos acham que hoje só existem 300 mil índios no País", e por demais equivocada! Além dos "antropólogos" não fazerem tal afirmação, o Censo do IBGE/2010 contabilizou, embora seja o número bastante discutível pelos pesquisadores, a população indígena no Brasil em 753 mil indivíduos sendo em Pernambuco 53 mil índios, em 12 povos que habitam no Agreste e Sertão do estado.
No mesmo texto ainda onde se lê que em 1500 foi o ano do "Descobrimento" do Brasil, há uma ênfase na redução da população indígena resultado dos "conflitos com os brancos", por meio da escravização, catequese e interesse pelas terras indígenas. Ao acentuar tal perspectiva é reforçada apenas uma suposta dominação colonial hegemônica diante de povos colonizados passivos. Dizendo de outra forma, uma ênfase no discurso preconceituoso sobre os índios como vítimas dos males da colonização, desprezando-se as ações indivíduas e coletivas indígenas na reformulação da dominação colonial em diversos contextos sociohistoricos, como comprovam as pesquisas.
Além disso, tal ideia também colabora para uma ideia de que os índios incapazes estão condenados implicitamente ao desaparecimento, o que desmentindo pelas próprias estimativas oficiais que afirmam o crescimento surpreendente da população indígena no Brasil nos últimos anos.
Ao tratar os índios como "tribos" o texto remete a uma concepção superada de hierarquização sociológica onde se diferenciavam nações, povos, etc., cabendo as "tribos" o último degrau de uma suposta escala de evolução sociocultural, pensada do ponto de vista Ocidental ou mais precisamente eurocêntrica. Ou seja, existem "tribos" na Europa moderna?!
Ao nomearmos povos indígenas, não se trata apenas de uma questão meramente semântica, porém o reconhecimento de grupos humanos que possuem história e expressões socioculturais específicas na História do Brasil, e não fora dela, se tratando ainda de coletividades que possuem na maioria das vezes uma História muito anterior ao próprio Brasil, ao próprio Estado brasileiro.
A ênfase, como aparece no texto em questão, na nossa herança cultural indígena seja por meio do "artesanato" (porque não Arte Indígena?!), nas "lendas" (por que não mitos indígenas?!), músicas, etc., etc., remete ao assinalado exotismo cultural: uma imagem do índio como um ser alienígena de quem se quer superficialmente conhecer a ‘cultura do índio' em seus apetrechos materiais visíveis, que seleciona-se me grande parte das vezes do ponto de vista consumista. Um consumo do éxótioc! Desprezando-se, ignorando-se uma discussão aprofundada da importância das expressões das sociodiversidades, dos saberes, as formas de ser e das organizações sociopolíticas indígenas, para a história da humanidade, do país.
As concepções aqui assinaladas e questionadas são muito comuns na grande maioria dos textos jornalísticos em geral e também em publicações especializadas. O que revela abordagens que não são baseadas em pesquisas e estudos especializados sobre o tema.
Os povos indígenas inegavelmente ocuparam o cenário sociopolítico em nosso país e a partir de suas mobilizações conquistaram nos últimos anos o (re)conhecimento, o respeito e a garantia a seus direitos específicos e diferenciados. Contribuindo com isso nas discussões sobre e as diferenças socioculturais, para se repensar em um novo desenho do Brasil em suas diversidades e pluralidades. Ou melhor, em sua sociodiversidades.
Esse reconhecimento exige também outras posturas da sociedade e medidas das autoridades governamentais em ouvir dos diferentes sujeitos sociais as necessidades de novas políticas públicas que reconheça, respeite e garantam essas diferenças. A Lei 11.645/2008 determinou a inclusão do ensino da história e culturas indígenas nos currículos escolares, ainda que careça de maiores definições, objetivou a superação dessa lacuna na formação escolar, a medida legal contribui para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar o país, a História do Brasil.
Os textos publicados, sejam jornalísticos, sejam em revistas especializadas, nos livros didáticos, ou ainda no ambiente acadêmico, devem estar sintonizados com as demandas sociais. Caso contrário, permanecerão reproduzindo, perpetuando antigas desinformações, equívocos e preconceitos sobre os povos indígenas.
* Presidente da ANPUH-PE (2011-2012). Doutor em História Social pela UNICAMP. Professor no Centro de Educação/Col. de Aplicação da UFPE, leciona no Programa de Pós-Graduação em História/UFPE e no Programa de Pós-Graduação em História/UFCG (Campina Grande/PB). Com vários artigos publicados sobre a história indígena e pesquisas que desenvolve junto ao povo Xukuru do Ororubá (Pesqueira e Poção/PE). Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9552532754817586
terça-feira, 10 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
JOAQUIM NABUCO E O SEU LUGAR DE FALA
Obras:
Amour et Dieu, poesias líricas (1874);
O Abolicionismo (1883);
O erro do Imperador, história (1886);
Escravos, poesia (1886);
Porque continuo a ser monarquista (1890);
Balmaceda, biografia (1895);
A intervenção estrangeira durante a revolta, história
diplomática (1896); Um estadista do Império, biografia, 3 tomos (1897-1899);
Minha formação, memórias (1900);
Escritos e discursos literários (1901);
Pensées detachées et souvenirs (1906);
Discursos e conferências nos Estados Unidos, tradução do inglês
de Artur Bomilcar (1911);
Obras completas, 14 vols. org. por Celso Cunha (1947-1949).
Joaquim Nabuco (J. Aurélio Barreto N.
de Araújo), escritor e diplomata, nasceu em Recife, PE, em 19 de agosto de
1849, e faleceu em Washington, EUA, em 17 de janeiro de 1910. Compareceu às
sessões preliminares de instalação da Academia Brasileira de Letras, fundador
da Cadeira nº 27, que tem como patrono Maciel Monteiro. Designado
secretário-geral da Instituição na sessão de 28 de janeiro de 1897, exerceu o
cargo até 1899 e de 1908 a 1910.
Era filho do Senador José Tomás Nabuco
de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, irmã do marquês do Recife,
Francisco Pais Barreto. Estudou humanidades no Colégio Pedro II,
bacharelando-se em letras. Em 1865, seguiu para São Paulo, onde fez os três
primeiros anos de Direito e formou-se no Recife, em 1870. Foi adido de primeira
classe em Londres, depois em Washington, de 1876 a 1879.
Atraído pela política, foi eleito
deputado geral por sua província, vindo então a residir no Rio. Sua entrada
para a Câmara marcou o início da campanha em favor do Abolicionismo, que logo
se tornou causa nacional, na defesa da qual tanto cresceu. De 1881 a 1884,
Nabuco viajou pela Europa e em 1883, em Londres, publicou O Abolicionismo.
De regresso ao país, foi novamente eleito deputado por Pernambuco, retomando
posição de destaque da campanha abolicionista, que cinco anos depois era
coroada de êxito. Ao ser proclamada a República, em 1889, permaneceu com suas
convicções monarquistas. Retirou-se da vida pública, dedicando-se à sua obra e
ao estudo.
Nessa fase de espontâneo afastamento,
Joaquim Nabuco viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo
jornalismo. Freqüentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou
relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de
Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia
Brasileira de Letras, em 1897.
Nesse período, Joaquim Nabuco escreveu
duas grandes obras: “Um
Estadista do Império”, biografia do pai, mas que é, na verdade, a história
política do país e um livro de memórias, “Minha Formação”, uma obra clássica de
literatura brasileira.
Em 1900, o Presidente Campos Sales
conseguiu demovê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro
plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a
Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, era acreditado
em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905,
em Washington. Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência
Pan-Americana. Em sua companhia veio o Secretário de Estado norte-americano
Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla
e efetiva aproximação continental. Em 1909, fez uma viagem oficial a Havana,
para assistir à restauração do governo nacional de Cuba.
Grande era o seu prestígio perante o
povo e o governo norte-americano, manifestado em expressões de admiração dos
homens mais eminentes, a começar pelo Presidente Theodore Roosevelt e pelo
Secretário de Estado Root; e na recepção das Universidades, nas quais proferiu
uma série de conferências, sobre cultura brasileira. Quando faleceu, em
Washington, seu corpo foi conduzido, com solenidade excepcional, para o
cemitério da capital norte-americana, e depois foi trasladado para o Brasil, no
cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, a
cidade que o viu nascer.
Em 28 de setembro de 1915, Recife inaugurou, em uma de
suas praças públicas, sua Estátua.
Um monumento em homenagem ao escritor pernambucano Joaquim Nabuco, foi inaugurado pela Academia Brasileira de Letras, ao lado do prédio da ABL, no centro do Rio, nesta quinta-feira (17). A estátua de bronze tem 1,90m, 220kg.
FONTE: ABL, 2012.
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